Dieta ou exercícios físicos ajudam no lipedema?

Dieta e exercícios físicos podem, sim, fazer diferença para quem tem lipedema — mas nem sempre da maneira que as pessoas esperam. Entenda o que eles podem realmente modificar, o que talvez não consigam mudar e por que essa distinção é importante.

CIRCULAÇÃO & INCHAÇO — GUIA DO LEITOR

Dr. Daniel Mendonça

8/18/20265 min ler

Se você já tentou perder peso e percebeu que seu corpo mudou, mas suas pernas continuaram desproporcionalmente afetadas, talvez tenha se perguntado se dieta e exercícios simplesmente “não funcionam” para o lipedema.

A resposta é mais complexa do que isso.

Dieta e exercícios podem melhorar a saúde geral, o peso corporal, a mobilidade e, potencialmente, alguns sintomas do lipedema. Mas perder peso não significa necessariamente que a distribuição característica do lipedema vá desaparecer — e esses são dois resultados muito diferentes.

O lipedema não torna o controle do peso inútil

Um dos equívocos mais persistentes sobre o lipedema é a ideia de que o tecido afetado simplesmente não consegue responder à perda de peso.

As evidências não sustentam uma afirmação tão absoluta.

Pessoas com lipedema podem perder peso, inclusive na parte inferior do corpo. E, quando também existe sobrepeso ou obesidade, o controle do peso pode trazer benefícios importantes para a saúde cardiovascular e metabólica, a mobilidade, a capacidade funcional e a sobrecarga mecânica sobre as pernas.

Mas isso não significa que a perda de peso necessariamente faça o lipedema se comportar exatamente como a distribuição habitual de gordura corporal.

A desproporção característica entre as pernas e o tronco pode persistir mesmo após uma perda de peso significativa, e sintomas como dor ou sensibilidade não desaparecem necessariamente na mesma proporção que os números na balança diminuem.

Portanto, duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:

o controle do peso pode ser benéfico, e o lipedema pode continuar sendo clinicamente relevante após a perda de peso.

O que as evidências dizem sobre a alimentação?

Atualmente, não existe uma dieta específica comprovadamente capaz de curar o lipedema.

Mas a questão da alimentação é mais interessante do que simplesmente dizer “coma menos”.

Pesquisas clínicas recentes investigaram abordagens alimentares com baixo teor de carboidratos em mulheres com lipedema. Em um estudo randomizado, mulheres que seguiram uma dieta com baixo teor de carboidratos apresentaram maior perda de peso e maior redução da dor do que aquelas que seguiram uma dieta controle com restrição calórica.

É importante destacar que a melhora da dor não apresentou uma correlação estreita com a quantidade de peso perdido.

Isso levanta uma possibilidade interessante: mudanças na alimentação podem influenciar os sintomas por mecanismos que não são explicados exclusivamente pela perda de peso.

Outras pesquisas também relataram reduções no tecido adiposo subcutâneo da parte inferior das pernas após intervenções alimentares com baixo teor de carboidratos.

Mas as evidências nessa área ainda estão em desenvolvimento.

Esses resultados não estabelecem uma dieta cetogênica ou com baixo teor de carboidratos como tratamento universal para o lipedema, nem significam que todas as pessoas com a condição devam iniciar uma dieta restritiva.

Entretanto, eles nos mostram algo importante:

a alimentação pode influenciar os sintomas e a composição corporal de maneiras mais complexas do que a afirmação de que “a gordura do lipedema nunca responde”.

E quanto aos exercícios físicos?

Os exercícios são importantes mesmo quando modificar a aparência das pernas não é o principal resultado esperado.

A atividade física regular favorece a saúde cardiovascular, a função muscular, a mobilidade, o controle do peso e a capacidade física geral. Para alguém que convive com pernas doloridas ou pesadas, manter a força e a capacidade de movimento pode ser particularmente valioso.

O tipo e a intensidade adequados dependem de cada pessoa, especialmente quando existem dor, problemas articulares, mobilidade reduzida, obesidade ou outras condições médicas.

Mas o objetivo não deveria se resumir a:

“Faça exercícios até o lipedema desaparecer.”

Uma pergunta mais útil seria:

“O que os exercícios podem melhorar na minha saúde, na minha capacidade funcional e nos meus sintomas?”

Esses resultados são importantes mesmo que as proporções corporais não se normalizem completamente.

E se você também tiver obesidade?

Essa questão precisa ser diferenciada do próprio lipedema.

Lipedema e obesidade podem coexistir, mas a presença de uma condição não torna a outra irrelevante.

Se uma pessoa com lipedema também apresenta obesidade, o tratamento da obesidade ainda pode proporcionar benefícios importantes à saúde. O diagnóstico de lipedema não deve se tornar um motivo para abandonar o controle adequado do peso.

Ao mesmo tempo, a persistência da desproporção corporal ou dos sintomas relacionados ao lipedema após a perda de peso não deve ser automaticamente interpretada como falta de esforço.

As duas condições precisam ser avaliadas e tratadas como problemas distintos que podem coexistir.

E quanto à cirurgia bariátrica?

A cirurgia bariátrica pode proporcionar uma perda de peso significativa em pessoas com obesidade que também apresentam lipedema.

O que ela não faz de maneira confiável é eliminar o padrão característico do lipedema ou todos os seus sintomas.

Estudos que acompanharam pacientes com lipedema após a cirurgia bariátrica relataram reduções importantes do peso e do volume dos membros inferiores, enquanto outros trabalhos descreveram a persistência da desproporção corporal ou de queixas relacionadas ao lipedema, apesar de uma grande perda de peso.

Portanto, a cirurgia bariátrica não deve ser apresentada nem como:

“um tratamento que resolve o lipedema”

nem como:

“algo que não consegue afetar o tecido do lipedema”.

Nenhuma dessas afirmações representa adequadamente as evidências.

Quando a cirurgia bariátrica é indicada, seu objetivo principal é tratar a obesidade e os riscos à saúde associados a ela. O comportamento do padrão do lipedema após a cirurgia pode variar.

Então, o que realmente vale a pena fazer?

O objetivo deve ser mais amplo do que tentar fazer com que as pernas tenham a mesma aparência que o restante do corpo.

Se existe excesso de peso, o controle adequado do peso continua sendo importante.

Se a atividade física pode melhorar a mobilidade, a força, a saúde cardiovascular ou a capacidade de realizar atividades diárias, isso também vale a pena.

E, se mudanças na alimentação melhoram a dor ou outros sintomas, esse benefício importa mesmo que a distribuição visual do tecido adiposo não desapareça completamente.

O que não ajuda é prometer que uma determinada dieta, um programa de exercícios ou uma quantidade específica de perda de peso irá “curar” o lipedema.

As evidências simplesmente não sustentam essa promessa.

A perspectiva de um cirurgião vascular

Quando uma paciente me pergunta se dieta ou exercícios “funcionam” para o lipedema, a primeira coisa que quero entender é o que ela considera funcionar.

Estamos falando de perder peso?

Melhorar a saúde cardiovascular?

Conseguir se movimentar com mais conforto?

Reduzir a dor?

Ou fazer com que as pernas fiquem completamente proporcionais ao restante do corpo?

Esses não são os mesmos resultados.

Dieta e exercícios certamente podem ter valor no lipedema. O erro é medir todo esse valor com base em uma única expectativa: se a aparência característica das pernas desaparece completamente.

O que você precisa saber

Dieta e exercícios não são inúteis no lipedema — e afirmar que o tecido afetado pelo lipedema simplesmente “não pode ser perdido” vai além do que as evidências sustentam.

O controle do peso pode melhorar a saúde geral e modificar o peso corporal e o volume dos membros inferiores. Os exercícios podem favorecer a mobilidade, a força, a saúde cardiovascular e a capacidade funcional. Pesquisas recentes também sugerem que determinadas abordagens alimentares podem melhorar a dor e outros resultados em algumas mulheres com lipedema.

Mas nada disso significa que dieta ou exercícios tenham demonstrado capacidade de curar o lipedema ou eliminar de maneira confiável sua distribuição característica e seus sintomas.

A pergunta mais útil não é:

“Por que não consigo eliminar isso com uma dieta?”

É:

“O que posso melhorar de maneira realista — e o que talvez precise de outro tipo de tratamento?”

Essa distinção está muito mais próxima do que as evidências realmente nos mostram.

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